| Saint-Clair Stockler ( @ 2008-10-07 08:28:00 |

Oswaldo Martins, poeta e professor, foi demitido da Escola Parque, dita "progressista". A razão? Recomendou o livro A jogadora de Go (a tradução brasileira é da competentíssima romancista Adriana Lisboa), da chinesa Shan Sa, aos alunos de 7ª e 8ª séries, adolescentes. Uma mãe leu o livro e achou-o "pornográfico". No decorrer desse processo louco, a escola alegou que Martins era professor e poeta, coisas que são "incompatíveis". Talvez porque ele escrevesse poema eróticos que, no entanto, jamais foram indicados por ele aos seus alunos. A escola chamou o professor para conversar e sugeriu que ele pedisse demissão; ele se recusou, foi demitido, e essa história dantesca acabou chegando aos jornais.
Algumas reflexões. Primeiro: A jogadora de Go é um dos livros mais belos que já li na vida, sem nada de erótico, que dirá pornográfico. Uma pessoa que veja nele algo de pornô está precisando urgentemente procurar um psiquiatra. Ou um michê. Segundo: que escola "progressista" é essa, meu deus? Um professor sugere a leitura de uma excelente obra literária, que ganhou diversos prêmios, inclusive em seu país de origem (o romance foi publicado originalmente em francês, porque Shan Sa mora na França, escreve na língua de Molière, e me lembro agora de um dos prêmios que ganhou por lá: o Goncourt des Lycéens, atribuído todos os anos por alunos franceses às obras que mais lhes encantaram, oh ironia!), e acaba sendo demitido?!? Terceiro: como é que a direção de uma escola ouve uma mãe sem analisar a obra, e acaba dando-lhe razão, passando por cima das decisões de um dos seus professores, especialista em literatura (Oswaldo Martins, como eu, tem mestrado em literatura concedido pela Uerj)? Quarto: poesia e educação são coisas incompatíveis desde quando? Então um poeta não pode ser professor, ou um professor poeta? A secular noção de poesia como paidéia foi jogada no esgoto pela Parque. Que escola!
A Escola Parque diz que não comenta em público decisões internas. Faz bem, porque nada que diga tornará esse caso mais correto. É vergonhoso, lamentável, mas pelo menos uma coisa podemos tirar de bom: a certeza de que a sociedade brasileira está mesmo muito doente, seus valores totalmente invertidos, quando uma mãe manda mais do que um professor em sala de aula.
Adendo: está lá, no site da Parque: "Escola Parque: uma escola que estimula a expansão cultural". A hipocrisia dessa gente nunca deixa de me surpreender!