Saint-Clair Stockler ([info]opiario) wrote,
@ 2007-12-24 10:42:00
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Hibakusha - Cristina Lasaitis

Já contei aqui que sou um dos organizadores de uma coletânea de Ficção Científica e Fantasia intitulada "22". São 22 autores, a maior parte brasileiros, mas também alguns portugueses, que escreveram histórias inéditas, a nosso convite. Os 3 organizadores - eu, Tibor Moricz e Eric Novello - fomos escolhendo autores que gostávamos, que conhecíamos ou que, simplesmente, eram incontornáveis nesse tipo de projeto. Uma das autoras que escolhi foi Cristina Lasaitis, uma jovem paulistana que não tem nenhum livro publicado, mas que eu conhecia da leitura de alguns dos seus contos na Web. Contos, diga-se de passagem, encantadores. O que me fascina sempre em C. L. é o seu absoluto domínio da narrativa: nunca falta nada em suas histórias, nunca sobra nada. O seu ritmo é sempre perfeito e, toda vez que termino uma delas, a sensação é a de ter vivido uma experiência artística rara, completa e verdadeira. Como no caso deste Hibakusha - que fica assim como uma espécie de "presente de Natal" aos leitores do Opiário:

Hibakusha

 

Um sol nascendo das brumas era o que a mãe de Yoshito pintava no corte de seda encomendado por uma gueixa do hamanuchi. Era vermelho como a bandeira imperial, rubro como o astro que despontava das névoas sobre a baía.

            – Mãe, não tem mais comida? Eu tô com fome.

            A mãozinha puxava com insistência o quimono da mãe, o pedido vinha em voz de súplica. As mãos magras e brancas de Noriko tremiam de fraqueza, de incerteza, tanto que por muito pouco ela não estragou o precioso serviço que fazia. Sentindo a garganta embargada, buscou uma resposta que não lhe custasse mais um choro na frente das crianças.

            – Yoshi, querido, a mamãe tem que entregar esta pintura para conseguir comprar arroz. Amanhã você e seu irmão podem ir pescar e voltarão cheios de peixes pro jantar. Agora que tal ir se deitar?

            Aquilo pouco consolou o menino, que continuou choramingando de fome. Noriko largou os pincéis, convencida pelo cansaço ou pelo desalento. Olhou para os três filhos que se enroscavam nas mantas ao redor do fogareiro. Crianças antes sadias, barulhentas, inquietas, agora reduzidas a criaturinhas tão magras e pálidas que pouco tinham ânimo para brincar. Como se viraria para criá-los? Tomoro, seu marido, fora recrutado pelo Exército Imperial Japonês havia um ano e desde então enviara somente três cartas para a família, a última delas pouco antes da Batalha de Okinawa. E já se contavam quatro meses de espera por notícias, a batalha tinha terminado e o silêncio só se prolongava. A espera era terrível. Como faria para cuidar das crianças sozinha?

            Noriko foi se deitar entre filhos. Kinue já estava dormindo, Isao usava uma lâmina para esculpir algo num pedaço de madeira e Yoshito veio buscar o colo da mãe.

            – Mãe, será que a gente consegue comida amanhã?

            Paciente, Noriko acariciou os cabelos do filho caçula e replicou:

            – Se não temos comida agora, querido, o importante é que pelo menos temos uns aos outros.

            – Menos papai.

            – É, menos o seu pai. Temos que ficar bem para quando ele voltar.

            Desta vez o pequeno pareceu um pouco mais conformado. Noriko trocou olhares com o filho mais velho, que já tinha idade suficiente para entender a angústia entremeada nas rugas precoces de sua mãe e o significado do silêncio nas cartas de seu pai. E ela se perguntava se teria sido uma atitude inteligente deixar que Isao ficasse em casa enquanto as escolas evacuavam todas as crianças da cidade para as montanhas. Noriko desejou ardentemente que aquela fosse a melhor escolha: manter a família unida. Ao menos ainda teriam uns aos outros.

            As brasas no fogareiro esfriaram sob o sopro das horas e a família dormiu com uma paz que era rara naqueles tempos.

            Quando a luz do dia despontou na baía, Isao se levantou para ir pescar. Foi com muito pesar que Noriko deixou seu filho seguir para a costa, pois na semana anterior houvera um ataque aéreo que destruíra o porto e os estaleiros da cidade.

            – Não vá para o porto, Isao. Tome cuidado!

            Isao sorriu e se foi. Sua mãe sentiu uma dor apertar no peito, uma pontada querendo insinuar que ela não mais o veria.

            Pouco depois, os ouvidos foram importunados por um ruído inesperado – o alarme de raide aéreo. Numa debandada de pânico, a mulher correu para dentro de casa e abraçou os dois filhos menores, que acordaram berrando de susto. Encurralaram-se em um canto da casa e ficaram enlaçados, rezando. Muito tempo se passou.

            Nada aconteceu.

            O céu estava silencioso, nublado. Nada se via e nada se ouvia. Talvez um leve rumor de avião passando aqui ou ali, mas não uma esquadrilha. À espera de um ataque que não veio, a população aos poucos se tranqüilizou e voltou aos seus afazeres. Alarmes falsos eram comuns em dias de guerra. As crianças se acalmaram e saíram para brincar no quintal. Um vizinho veio dizer que o alarme fora disparado por causa de um avião inimigo em vôo de reconhecimento.

            E a manhã correu tranqüila. Noriko voltou a se preocupar com o almoço minguado, com a limpeza da casa e as roupas na lavanderia. Kinue e Yoshito brincavam com as minhocas que desenterraram no quintal. Era isso, talvez uma sopa de minhocas pudesse aplacar a fome da família por mais um dia!

            – Mamãe, mamãe, olha o avião – Kinue, empolgada, indicou o alto. – Um avião!

            A mãe correu para ver, preocupada com o sinal dado pela filha. O céu estava nublado e pouco se via. A menina insistiu:

            – Ali mãe, o Yoshi também viu!

            E foi então que uma clareira nas nuvens se abriu e Noriko conseguiu vislumbrar um avião de guerra voando muito alto. E mais outro. E outro. Apenas três, um número irrisório para um ataque aéreo. Yoshi e Kinue deram tchau para o avião. Logo depois, uma das naves abriu o seu bojo e soltou alguma coisa que veio caindo lentamente, atada a três pára-quedas.

            – Olha! Será que é um presente?

            Noriko ficou ao lado dos filhos, apreciando a aparição e acreditando que talvez fosse mesmo um presente. Talvez uma promessa de paz. Dois minutos depois, o segundo avião abriu o bojo e deixou cair outra coisa: um fardo negro.

            – Outro presente! – vibrou Yoshi.

            O menino olhou para sua mãe e viu-a sorrir. Fazia tempos que sua mãe não sorria.

            O pontinho negro foi caindo sobre a baía de Nagasaki, trazendo aos expectadores uma grande ansiedade. Em um momento indeterminado, meio quilômetro acima do solo, a promessa de paz rompeu o seu invólucro...

            E o mundo se iluminou.



CRISTINA LASAITIS é biomédica. Suas grandes paixões na vida são a ciência e a literatura, especialmente de Ficção Científica e Fantástica. Participou do livro Visões de São Paulo - Ensaios urbanos (2006), tem textos publicados na revista Scarium, no site Novas Visões de São Paulo (http://www.nvsp.tarjaeditorial.com.br) e em seu blog pessoal (http://christie.zip.net). Planeja lançar em breve a sua primeira coletânea de contos.




(14 comments) - (Post a new comment)


[info]aslaranjas
2007-12-24 03:45 pm UTC (link)
Não sei se conheces o David Soares. É um escritor português muito ligado à literatura fantástica. Tem um blogue interessante

http://sonhodenewton.blogspot.com/

Um abraço,
Bom Natal.

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[info]opiario
2007-12-24 04:38 pm UTC (link)
Conheço só de ouvir falar, nunca li nada dele. Muito obrigado pela excelente dica.

Feliz Natal com muito Bolo rei procê!

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(Anonymous)
2007-12-24 03:48 pm UTC (link)
Oi Saint Clair
É minha honra ter meu texto publicado no seu blog!

Beijos
Cris ;)

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[info]opiario
2007-12-24 04:38 pm UTC (link)
A honra, querido, é toda minha: seus contos são maravilhosos!

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[info]opiario
2008-01-13 01:25 pm UTC (link)
Aliás, queridA. rsrsrs. Sorry!

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[info]geleiairreal.wordpress.com
2007-12-26 12:54 pm UTC (link)
被爆者 (ひばくしゃ) = vítima de(a) bomba atômica.

O que é hamanuchi?

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[info]geleiairreal.wordpress.com
2007-12-26 01:01 pm UTC (link)
Ao pé da letra:
hi 'sofrer' + baku 'explosão' + sha 'pessoa'

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[info]opiario
2007-12-26 05:41 pm UTC (link)
Não sei, vou perguntar à autora. Pelas partículas, imagino que seja algum tipo de abrigo anti-aéreo... rsrsrs.

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[info]geleiairreal.wordpress.com
2007-12-26 06:25 pm UTC (link)
Desconfio que seja 浜主 (hamanushi) - ao pé da letra, uma espécie de "senhorio/cafetão do litoral".

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[info]geleiairreal.wordpress.com
2007-12-26 06:30 pm UTC (link)
Aliás, já percebeu como veneramos as palavras?
Sempre estamos aos pés das letras, ideogramas e sinais.

Um grande beijinho!

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(Anonymous)
2007-12-28 09:37 pm UTC (link)
Hamanuchi é a casa das gueixas.
Hibakusha é como são chamados os sobreviventes da bomba atômica.

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[info]geleiairreal.wordpress.com
2007-12-29 02:12 am UTC (link)
E que tal "hanamachi"?
http://en.wikipedia.org/wiki/Hanamachi
________________________________________

花街
n. (Hiragana=かがい) Red-light District, neighborhood with many houses of prostitution

花街 かがい
花街 はなまち
(n) red-light district; prostitution quarter

________________________________________


Quanto a "hamanuchi":
http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=%22hamanuchi%22&btnG=Pesquisar&meta=


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[info]tmoricz
2008-01-03 01:23 pm UTC (link)
Um conto pungente, triste... parabéns Cris.

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