| Saint-Clair Stockler ( @ 2007-03-23 22:54:00 |
Amores expressos
Escrevi tudo o que eu pensava num texto intitulado "Paraty 2006" – se quiser pode linkar. A festa ajuda a promover a Companhia das Letras (leia-se: Unibanco) e os patrocinadores. Quanto aos escritores (sobretudo, os brasileiros), são uns carentes, deslumbrados. Vão lá para aparecer no jornal e ganhar tíquete-refeição. São gado do senhor Schwarcz [dono da Cia. das Letras]. Não se pode falar em "literatura brasileira" no caso de Paraty. Os escritores que aceitam o curral de Paraty são oportunistas, omissos e covardes. Gado.
Marcelo Mirisola, em entrevista a Márcia Denser.
Tenho grande simpatia pelo polêmico escritor Marcelo Mirisola. Polêmico mas bom escritor, vou logo avisando. Acho que o Mirisola diz coisas que eu, mais covarde, penso e não digo. Então digamos que sou um Mirisola mais hipócrita - mea culpa. Mas sei que muita gente por aí, muito escritor bom e de certa projeção, pensa exatamente a mesma coisa que Mirisola mas também não tem coragem de anunciar suas opiniões em voz alta. Não que isso tranquilize a minha consciência, só estou observando o fato.
Nessa polêmica que estourou na última semana, a respeito do um milhão e duzentos mil reais de um Projeto que levará 16 autores brasileiros (alguns, estranhamente, tão inéditos que sequer escreveram um único livro) a 16 cidades pelo mundo, durante um mês, com tudo pago e mais 10 mil reais, limpinhos, a título de direitos autorais - tudo isso com dinheiro público, captado através da Lei Rouanet -; um projeto "multimídia", que vai gerar um documentário, além da obrigação por parte de cada escritor de produzir um romance, uma "história de amor", que será publicado pela Companhia das Letras, a editora associada ao Projeto - bem, eu dizia, nessas minhas orações subordinadas caramujescas, que durante a polêmica um dos caras que sustentou até o fim sua opinião contrária ao Projeto foi justamente Marcelo Mirisola. Pra ele, o Projeto não passa de um trem da alegria, capitaneado pelos seus idealizadores: Rodrigo Teixeira e o escritor carioca João Paulo Cuenca (ele próprio um dos 16 escolhidos; vai pra Tóquio), uma farra com dinheiro público, uma "ação entre amigos". Mirisola sustentou bravamente, como poder-se-á observar na entrevista que ele concedeu à mítica escritora Márcia Denser (é só clicar no link lá em cima), o seu desagrado com a coisa toda. Deu tanto a cara a tapa nessa última semana que foi "estapeado" por escritores do porte de Sérgio Sant'Anna (a história toda pode ser acompanhada no TodoProsa, no texto intitulado "Polêmica expressa" e nos seguintes).
Quanto a mim, respeito a opinião de Marcelo Mirisola. Em princípio, não vejo nada de errado em um Projeto literário dessa natureza. A coisa começa a me cheirar mal, muito mal mesmo, é quando numa lista de 16 autores, alguns fazendo parte do time dos maiores escritores brasileiros vivos, aparecem também nomes de ilustres desconhecidos, que nunca jamais publicaram um livro sequer. Algum de vocês imagina um Projeto semelhante, no qual, por exemplo, 16 autores portugueses - Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, José Luis Peixôto, entre outros - são convidados a passar um mês com tudo pago em uma dentre 16 cidades brasileiras, todos esses grandes autores portugueses, e mais um punhado de "escritores" sem livros publicados, inéditos? Se o Projeto é um "projeto literário" a primeira coisa a ser observada na escolha dos escritores é sua produção literária, certo? Ou será que eu enloqueci e estou querendo demais?
Portanto, quando Mirisola levanta importantes questionamentos sobre o Projeto - que se chama Amores Expressos -, acho que ele está botando o dedo em algumas feridas:
A Lei Rouanet virou gandaia. Tem precedentes vergonhosos, é bom lembrar. Essa lei precisa ser revista. Já se fez muita merda por aí com ela . Se não me engano – vale conferir –, a família Barreto levantou uma grana preta para produzir o filme Paixão de Jacobina. A cantora Ana Carolina já deu seus pitacões. Agora os editores descobriram o filão ... pobre Rouanet. Se eu fosse ele, tirava meu nome dessa baixaria. Ou você acha que só pelo fato de sair da Vila Madalena ou de Ipanema e de embolsar R$ 10 mil, mais traslados, passagens e hospedagem, os amigos de boteco de João Paulo Cuenca vão mudar o estilo? Nem aqui, nem na China.
Nas rodas de discussão da última semana, andei observando que quem quer que levantasse dúvidas sobre o Projeto era imediatamente alvo de uma saraivada de críticas: "Despeitado!", "Invejoso!", gritavam os demais. Aliás, Joca Renners Terron, um dos escritores escolhidos (vai para o Cairo), preferiu adotar um tom sarcástico para comentar a polêmica:
Ainda há esperança, afirmam cientistas brasileiros, à esta altura enfurnados em alguma universidade desconhecida, lutando arduamente para descobrir a vacina que combata essa HORRENDA epidemia de dor-de-cotovelo fatal que se alastrou descontroladamente pelo Bananão nos últimos dias.
Acho que a coisa é mais séria do que isso. Há que se repensar profundamente o assunto, e não por causa do dinheiro público. O que me preocupa, aliás a única questão que me incomoda nessa história toda, é a questão literária: como é que foram convidar "autores" que não têm livro nenhum publicado para um projeto dessa envergadura? Confesso-me perplexo.
Para aqueles que não tinham conhecimento da polêmica, vai a lista com os 16 felizardos e seus respectivos destinos:
Antônio Prata (Xangai)
Cecília Giannetti (Berlim)
Daniel Galera (Buenos Aires)
João Paulo Cuenca (Tóquio)
André de Leones (São Paulo)
Amilcar Bettega (Istambul)
Joca Reiners Terron (Cairo)
Adriana Lisboa (Paris)
Chico Mattoso (Havana)
Lourenço Mutarelli (Nova York)
Reinaldo Moraes (Cidade do México)
Antonia Pellegrino (Bombaim)
Bernardo Carvalho (São Petersburgo)
Luiz Ruffato (Lisboa)
Marçal Aquino (Roma)
Sérgio Sant’Anna (Praga)
Em tempo: o Prosa & Verso de amanhã sai com esse assunto como reportagem principal.
Escrevi tudo o que eu pensava num texto intitulado "Paraty 2006" – se quiser pode linkar. A festa ajuda a promover a Companhia das Letras (leia-se: Unibanco) e os patrocinadores. Quanto aos escritores (sobretudo, os brasileiros), são uns carentes, deslumbrados. Vão lá para aparecer no jornal e ganhar tíquete-refeição. São gado do senhor Schwarcz [dono da Cia. das Letras]. Não se pode falar em "literatura brasileira" no caso de Paraty. Os escritores que aceitam o curral de Paraty são oportunistas, omissos e covardes. Gado.
Marcelo Mirisola, em entrevista a Márcia Denser.
Tenho grande simpatia pelo polêmico escritor Marcelo Mirisola. Polêmico mas bom escritor, vou logo avisando. Acho que o Mirisola diz coisas que eu, mais covarde, penso e não digo. Então digamos que sou um Mirisola mais hipócrita - mea culpa. Mas sei que muita gente por aí, muito escritor bom e de certa projeção, pensa exatamente a mesma coisa que Mirisola mas também não tem coragem de anunciar suas opiniões em voz alta. Não que isso tranquilize a minha consciência, só estou observando o fato.
Nessa polêmica que estourou na última semana, a respeito do um milhão e duzentos mil reais de um Projeto que levará 16 autores brasileiros (alguns, estranhamente, tão inéditos que sequer escreveram um único livro) a 16 cidades pelo mundo, durante um mês, com tudo pago e mais 10 mil reais, limpinhos, a título de direitos autorais - tudo isso com dinheiro público, captado através da Lei Rouanet -; um projeto "multimídia", que vai gerar um documentário, além da obrigação por parte de cada escritor de produzir um romance, uma "história de amor", que será publicado pela Companhia das Letras, a editora associada ao Projeto - bem, eu dizia, nessas minhas orações subordinadas caramujescas, que durante a polêmica um dos caras que sustentou até o fim sua opinião contrária ao Projeto foi justamente Marcelo Mirisola. Pra ele, o Projeto não passa de um trem da alegria, capitaneado pelos seus idealizadores: Rodrigo Teixeira e o escritor carioca João Paulo Cuenca (ele próprio um dos 16 escolhidos; vai pra Tóquio), uma farra com dinheiro público, uma "ação entre amigos". Mirisola sustentou bravamente, como poder-se-á observar na entrevista que ele concedeu à mítica escritora Márcia Denser (é só clicar no link lá em cima), o seu desagrado com a coisa toda. Deu tanto a cara a tapa nessa última semana que foi "estapeado" por escritores do porte de Sérgio Sant'Anna (a história toda pode ser acompanhada no TodoProsa, no texto intitulado "Polêmica expressa" e nos seguintes).
Quanto a mim, respeito a opinião de Marcelo Mirisola. Em princípio, não vejo nada de errado em um Projeto literário dessa natureza. A coisa começa a me cheirar mal, muito mal mesmo, é quando numa lista de 16 autores, alguns fazendo parte do time dos maiores escritores brasileiros vivos, aparecem também nomes de ilustres desconhecidos, que nunca jamais publicaram um livro sequer. Algum de vocês imagina um Projeto semelhante, no qual, por exemplo, 16 autores portugueses - Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge, Inês Pedrosa, José Luis Peixôto, entre outros - são convidados a passar um mês com tudo pago em uma dentre 16 cidades brasileiras, todos esses grandes autores portugueses, e mais um punhado de "escritores" sem livros publicados, inéditos? Se o Projeto é um "projeto literário" a primeira coisa a ser observada na escolha dos escritores é sua produção literária, certo? Ou será que eu enloqueci e estou querendo demais?
Portanto, quando Mirisola levanta importantes questionamentos sobre o Projeto - que se chama Amores Expressos -, acho que ele está botando o dedo em algumas feridas:
A Lei Rouanet virou gandaia. Tem precedentes vergonhosos, é bom lembrar. Essa lei precisa ser revista. Já se fez muita merda por aí com ela . Se não me engano – vale conferir –, a família Barreto levantou uma grana preta para produzir o filme Paixão de Jacobina. A cantora Ana Carolina já deu seus pitacões. Agora os editores descobriram o filão ... pobre Rouanet. Se eu fosse ele, tirava meu nome dessa baixaria. Ou você acha que só pelo fato de sair da Vila Madalena ou de Ipanema e de embolsar R$ 10 mil, mais traslados, passagens e hospedagem, os amigos de boteco de João Paulo Cuenca vão mudar o estilo? Nem aqui, nem na China.
Nas rodas de discussão da última semana, andei observando que quem quer que levantasse dúvidas sobre o Projeto era imediatamente alvo de uma saraivada de críticas: "Despeitado!", "Invejoso!", gritavam os demais. Aliás, Joca Renners Terron, um dos escritores escolhidos (vai para o Cairo), preferiu adotar um tom sarcástico para comentar a polêmica:
Ainda há esperança, afirmam cientistas brasileiros, à esta altura enfurnados em alguma universidade desconhecida, lutando arduamente para descobrir a vacina que combata essa HORRENDA epidemia de dor-de-cotovelo fatal que se alastrou descontroladamente pelo Bananão nos últimos dias.
Acho que a coisa é mais séria do que isso. Há que se repensar profundamente o assunto, e não por causa do dinheiro público. O que me preocupa, aliás a única questão que me incomoda nessa história toda, é a questão literária: como é que foram convidar "autores" que não têm livro nenhum publicado para um projeto dessa envergadura? Confesso-me perplexo.
Para aqueles que não tinham conhecimento da polêmica, vai a lista com os 16 felizardos e seus respectivos destinos:
Antônio Prata (Xangai)
Cecília Giannetti (Berlim)
Daniel Galera (Buenos Aires)
João Paulo Cuenca (Tóquio)
André de Leones (São Paulo)
Amilcar Bettega (Istambul)
Joca Reiners Terron (Cairo)
Adriana Lisboa (Paris)
Chico Mattoso (Havana)
Lourenço Mutarelli (Nova York)
Reinaldo Moraes (Cidade do México)
Antonia Pellegrino (Bombaim)
Bernardo Carvalho (São Petersburgo)
Luiz Ruffato (Lisboa)
Marçal Aquino (Roma)
Sérgio Sant’Anna (Praga)
Em tempo: o Prosa & Verso de amanhã sai com esse assunto como reportagem principal.