
Se este não fosse um país perdido em seus próprios delírios, numa trip infinda e desvairada, louco, louco, mil vezes louco, Elvira Vigna seria estudada nas universidades, discutida nos cafés, citada obrigatoriamente em qualquer conversa sobre literatura, presença de honra nas FLIPs da vida.
Mas sabemos como e o quê o Brasil é.
A minha esperança é que um dia acordemos e se tenha descoberto, assim como que num passe de mágica, que ela escreveu ao menos uma obra-prima da literatura brasileira: o romance (romance?) A um passo.
Elvira tem um site e agora ela resolveu, para cada um dos seus livros, fazer uma pequena apresentação em vídeo. Coincidências ou não, o seu romance preferido é o meu romance preferido seu, justamente o A um passo. Vale a pena dar uma olhada no vídeo no qual ela explica que não conta a história, que a história é "contada pelo leitor".

Estou pensando em transformar o Opiário em um blog exclusivamente literário. Reparei que tenho perdido leitores nos últimos 2 anos, ou os leitores deixaram de fazer comentários, ou ambos.
Embora escreva primeiramente para mim (sou um egoísta convicto), mesmo amando ser lido, esse silêncio me incomoda. Fico imaginando se passar a falar de livros, autores, leitores, enfim, o universo todo das letras, não fará com que as pessoas sintam-se mais animadas e dizer "oi, estou aqui acompanhando-o".
Já pensei em falar de sexo, claro, mas muito sabiamente me lembrei que isso primeiro iria chocá-los, segundo não seria muito bom para a minha vida profissional. Tenho alunos que ficariam incomodados, pra dizer o mínimo, se eu falasse abertamente sobre sexo, meio como fazia nos primórdios deste blog, há 6 anos. Além do mais, minha vida sexual é por demais bizarra e não sei se teria los cojones para contá-la assim tão aberta e cruamente como gostaria, como sempre tive vontade, como seria o meu estilo.
Muitos não se lembram, mas houve uma época em que para se criar um Live Journal era necessário ser convidado por alguém que já fosse usuário. A pessoa que me convidou acusou-me certa vez de não dizer toda a verdade sobre mim por aqui. Segundo ele, eu era muito "literário" e incapaz de ser verdadeiro. Refutei com veemência essa acusação, mas hoje penso que ela foi - e continua sendo - verdadeira. Gosto de pensar em mim mesmo como uma pessoa muito independente da opinião pública, mas no fundo morro de medo dela.
Enfim: não sei. Só acho que preciso mudar para continuar existindo, para voltar a me sentir satisfeito. Seja como for, o Opiário continuará: nunca pensei seriamente em acabar com ele; seria como amputar um braço.

Não sou santo. Nem faço questão de sê-lo. Não tenho vergonha em assumir: tenho quase todos os pecados e defeitos do mundo. Mas existe uma coisa, uma só, que me é completamente alienígena: a inveja. Não sou uma pessoa invejosa, que me lembre nunca senti inveja seja de quem for ou de que situação for. Me é até difícil "entender" a inveja, que acho uma perda de tempo: o invejoso não vai conseguir possuir aquilo que inveja e ficará duplamente frustrado, por invejar e por não conseguir. Inutilidade total.
Bom, você me diria: que bom que você não sabe o que é inveja. E eu concordaria: é mesmo. Certo? Errado. Já notei que não ser invejoso causa certo transtorno, incômodo e confusão. Vou lhe explicar: tenho vários amigos em situação muito boa (vou me ater ao campo financeiro, onde a inveja é mais visível), alguns em situação financeira excelente. E já percebi que eles ficam incomodados por eu não dar o mais mínimo indicativo de que sinto inveja da situação deles. Algumas vezes, chegam eles a me olhar até estranho. A sensação que tenho é que aos olhos deles falta "alguma coisa".
Daí, descobri um fato importantíssimo: a inveja pode andar de braços dados com a vaidade. O invejado, muitas vezes, sente-se bem por sê-lo. Não sei bem como o processo se dá, lá nos meandros do inconsciente, mas imagino que seja assim: "Oh, como é gostoso, fulano me inveja! Eu tenho, eu possuo, ele não" e "me inveje, me inveje, me faz bem me ver no espelho dos seus olhos arregalados de inveja".
Isso só me faz concordar que o ser humano é, sim, uma criatura muito misteriosa e complicadinha...

Eu e o escritor Tibor Moricz estamos organizando uma nova coletânea, essa exclusivamente de ficção científica, tanto hard quanto soft, e ainda em qualquer um de seus subgêneros.
Procuramos 4 autores para, juntos a outros 8 previamente convidados, integrar um grupo de 12.
O tema será “Brinquedos do futuro” e o título do livro Brinquedos mortais.
Queremos contos que causem desconforto, perturbação, medo, perplexidade, inquietação. Contos que fujam dos clichês ou os utilizem de forma criativa e original.
O tamanho dos contos não poderá exceder 12 páginas formato A4, tabulação padrão do Word, fonte Times New Roman, corpo 12, com entrelinhas de 1,5.
Antecipamos que contos mal escritos, com evidente descuido de revisão e forma, serão descartados logo de início. Os 4 aprovados publicarão ao lado de seis “feras” da ficção científica brasileira.
São eles:
Ataíde Tartari,
Braulio Tavares,
Carlos Orsi Martinho,
Lúcio Manfredi,
Luis Brás (heterônimo de Nelson de Oliveira),
Roberto de Sousa Causo,
Tibor Moricz
Saint-Clair Stockler.
Os contos deverão ser enviados até o dia 28 de fevereiro de 2010 para o email: brinquedosmortais@gmail.com
A editora parceira é a Editora Draco e a publicação tem previsão para até junho de 2010.
Queremos MUITA transpiração de todos.
Bom trabalho!

Algo me diz que o governo do Estado do Rio de Janeiro vai ter muito trabalho para aprontar a cidade para as Olimpíadas e a Copa do Mundo...
(Na foto, uma moradora de Copacabana foge - tendo por trás um policial armado - depois que bandidos incendeiam um ônibus na principal avenida do bairro, em protesto pela ocupação policial no morro Pavão-Pavãozinho)

O site da revista CartaCapital publica uma resenha da pena do jornalista Antonio Luiz M. C. Costa a respeito do iminente lançamento dos volumes 1 e 2 da série Imaginários, que eu, Tibor Moricz e Eric Novello organizamos e nos quais temos um conto cada. Reproduzo-a integralmente abaixo:
Para alimentar a imaginação
Depois de muitos anos de estagnação pontuada apenas por valentes fanzines de qualidade incerta e variável, antologias de contos brasileiros (com participação ocasional de portugueses e hispanoamericanos) de ficção científica, horror e fantasia, com autores de categoria profissional, estão voltando a se tornar rotina. Da gaúcha Editora Não, têm sido lançados desde o final de 2008 três livros da coleção Ficção de Polpa. Da paulista Editora Tarja, foram lançados desde 2005 três livros da coletâneaNecrópole, em 2008 a Histórias do Tarô e em 2009 a série Paradigmas (três livros já lançados, mais um previsto para dezembro) e a coletânea Steampunk.
Surge agora uma nova série, a Imaginários, da também paulista e estreante Editora Draco ( http://editoradraco.com/ ), cujos dois primeiros livros serão lançados simultaneamente em 28 de novembro, na Livraria Cultura do Shopping Market Place, em São Paulo. Cada volume tem 128 páginas ao preço de R$ 22,90 e ambos foram organizados pelos escritores Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello.
Deve-se dizer que as capas, embora bem cuidadas, não correspondem bem ao conteúdo. Sugerem um tipo de aventura fantástica adolescente, ao estilo dos quadrinhos do gibi Heavy Metal, no qual não se enquadra nenhum dos contos das duas antologias, ambas de tom bem mais maduro e sofisticado – mesmo se frequentemente também muito divertidas.
Imaginários 1 reúne onze contos, todos de autores brasileiros, mas com propostas especulativas das mais variadas. Dois ou três brilhantes, um ou dois relativamente fracos e os restantes de bom nível profissional.
Coleira do amor, de Gerson Lodi-Ribeiro é ficção científica da mais moderna. Não é redundância, pois não são poucos os autores se prendem a antigas ideias sobre o futuro, que perderam relevância para as preocupações e especulações do presente. O tema é o uso voluntário da manipulação bioquímica dos sentimentos – no caso, a exacerbação do amor, cujos problemas surgem quando morre um dos parceiros – em um cenário futurista surpreendente, mas cientificamente plausível, muito verossímil e que dialoga com questões relevantes para o futuro da sociedade e da ética.
Eu, a sogra, de Giulia Moon é fantasia da mais divertida. Uma bruxa é apresentada à nora em um momento pouco conveniente, criando uma situação de ofuscar os melhores episódios de seriados como A Feiticeira.
Veio... novamente, de Jorge Luiz Calife, um veterano que escreve ficção científica desde os anos 80, tem um sabor algo saudosista. Uma família estadunidense algo idealizada tem um Contato Imediato quase spielbergiano no deserto de Mojave.
A encruzilhada, de Ana Lúcia Merege, segue os caminhos clássicos da fantasia medieval, embora sem elfos ou anões. Sutil e com uma linguagem muito bem trabalhada, só lhe falta um fechamento satisfatório como conto, pois termina abrindo e anunciando possibilidades ainda mais interessantes, como se fosse o prólogo de uma história mais longa.
Por toda a eternidade, de Carlos Orsi é uma breve história de crime no espaço com um toque de humor. Com apenas duas páginas, esse miniconto não se classifica na mesma divisão dos outros, mas vale a leitura.
Twist in my sobriety, de Flávio Medeiros, pertence à tradição paranoide (e, com frequência social e politicamente conservadora, como neste caso) da invasão extraterrestre, neste caso realizada de maneira peculiar e original.
Um toque do real: óleo sobre tela, de Roberto de Sousa Causo, talvez seja a mais fascinante das fantasias deste volume. Um pintor perde-se em um universo paralelo formado por sua própria pintura.
Alma, de Osíris Reis combina de maneira complexa e ousada na qual fantasia e ficção científica se misturam do ponto de vista de uma extraterrestre que habita um mundo exótico.
Contingência, ou Tô pouco ligando, de Martha Argel é uma ficção científica sobre o mundo contemporâneo, com um argumento político ecologista muito bem fundamentado, bem-humorado e integrado na trama. É um confronto fluente e vivo com a ciência tal como realmente é praticada, embora exija um mínimo de disposição de lidar com termos e conceitos de biologia.
Tensão Superficial, de Davi M. Gonzales, é a aventura de um estudante que encontra um mistério inexplicável em um prédio muito antigo. Um conto curto e comparativamente fraco.
Planeta Incorruptível, de Richard Diegues – que é sócio e editor da concorrente Tarja –, poderia ser chamado de uma ficção teológica, mais que científica: invasores alienígenas confrontam santos e milagres da Igreja Católica.
Imaginários 2 vem com sabor transatlântico – pois junta cinco brasileiros a quatro portugueses: João Barreiros, Jorge Candeias, Sacha Ramos e Luís Filipe Silva – e uma qualidade mais regular, pois todos os nove contos são de boa qualidade. É difícil apontar qual mais se destaca.
Se acordar antes de morrer, de João Barreiros, acompanha um robô que, programado para personificar Papai Noel a cada Natal, insiste em representar seu papel em meio ao um dos apocalipses mais absolutos e deprimentes já concebidos pela ficção científica.
Às vezes eu os vejo, de Saint-Clair Stockler, uma mulher simples do interior do Brasil com a capacidade de ver seres louros e misteriosos que ninguém mais vê – talvez os intraterrestres de certas crenças esotéricas – conta sua história e se mostra mais culta e ousada do que se poderia suspeitar.
Flor do Trovão, de Jorge Candeias desafia o leitor a se pôr na pele de um alienígena sem nada de humano, em um mundo estranho e primitivo. É uma história para leitores dispostos a enfrentar uma ficção científica experimental e especulativa, que busca questionar mais que divertir.
O toque invisível, de Alexandre Heredia, trata de um software tão complexo e sofisticado que acaba por ganhar consciência e vontade própria. O tema, já tradicional na ficção científica, é retomado com especial vivacidade e humor, com personagens e ambiente empresarial muito convincentes.
O cheiro do suor, de Eric Novello, é um sujo conto noir de crime e violência, na qual um lobisomem presta diferentes tipos de serviços a policiais corruptos.
A Rosa Negra, de Sacha Ramos, combina crime, amor, fantasia e ficção científica com habilidade e beleza e arma o drama pungente de um jovem português do futuro que tenta escapar ao peso da tradição familiar de cultivo de rosas transgênicas, legada por um avô terrível, para se unir à noiva no Brasil.
A casa de um homem, de Luís Filipe Silva, conta a história de um homem cuja odisseia para recuperar a casa roubada o leva a peregrinar por um pedaço de Portugal vendido (para cobrir a dívida pública) para um regime neonazista, por uma Nova York decaída e transformada em uma nova Hong Kong e por uma Nova Inglaterra devorada por insetos mutantes.
Eu te amo, papai, de Tibor Moricz, um horror meio científico, meio fantástico, com um protagonista que se esforça para se manter insensível às implicações morais de trabalhar em uma central que explora a energia paranormal gerada por crianças confinadas em casulos desde o nascimento, enquanto estas armam uma rebelião sem precedentes.
Uma questão de língua, de André Carneiro, decano da ficção científica brasileira (começou a escrever no gênero em fins dos anos 50), mais uma vez recorre a seu enredo favorito, um homem obcecado por uma mulher misteriosa. Neste caso, um homem especializado em invisibilidade e uma mulher que faria qualquer coisa por um livro raro de Jorge Luís Borges.
Li a história há anos, numa reportagem, e nunca me esqueci dela. Alguns funcionários da filial brasileira de uma montadora de automóveis - deve ser a Wolkswagen, mas não me lembro mais - foram fazer um treinamento na Matriz. Todos os dias havia reuniões entre os alemães e os brasileiros. Ao final, foi feita uma enquete sobre o que um grupo achou do outro. Não me recordo do que os brasileiros acharam dos alemães ("muito frios, muito distantes, muito formais" deve ter sido) mas houve duas coisas, apontadas unanimemente pelos alemães, que os chocaram em relação ao comportamente brasileiro:
Primeira: os brasileiros nunca chegavam na hora. Só 15 minutos depois do horário marcado;
Segunda: durante as reuniões, eram distribuídos bloquinhos de papel e canetas a todos os participantes. Ao final, os alemães destacavam as folhas usadas e deixavam o restante do bloco, mais a caneta, sobre a mesa de reuniões. Os brasileiros levavam os blocos mais as canetas.
A famosa "(im)pontualidade" brasileira também me incomoda: faço questão de chegar no horário marcado; às vezes, até 5 minutos antes. Raramente me atraso, embora, numa cidade como o Rio de Janeiro, em que as principais vias de acesso são frequentemente interrompidas por 2 ou 3 horas devido aos tiroteios, isso acabe sendo mais comum do que se desejaria. Não me incomodo de esperar (já esperei uma amiga por uma hora e meia, numa boa - e isso num tempo em que não havia celulares pra gente se comunicar). Mas, aos estrangeiros, eu daria uma sugestão: se você marcou um encontro com um brasileiro, tenha em mente que muito provavelmente ele ou ela vai chegar uns 15 minutos atrasado(a). No Brasil, 15 minutos de atraso nem é considerado atraso. Atraso só depois desse tempo.
(Preocupação com atrasos me lembra os japoneses. Acho que todo mundo já viu, em reportagens sobre o Japão, sobretudo em Tóquio, um monte de homens e mulheres muito esbaforidos, correndo pelas calçadas. Sempre achei aquilo engraçado, até que um dia descobri a razão: no Japão é praticamente pecado mortal chegar-se atrasado seja para o que for)
Sobre os bloquinhos e canetas, acho que é uma questão realmente mais complicada. Eu mesmo não vejo nada de mais em se levar o material, e, provavelmente, se estivesse nessa reunião da Wolkswagen, teria feito o mesmo sem me aperceber de que estava ofendendo quase mortalmente os alemães. É a tal "diferença cultural", se é que isso serve de escusa.