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O fim do mundo

Sonhei com o fim do mundo e o fim do mundo era uma imensa e transparente onda verde-azulada num dia ensolarado, mais ou menos da cor de uma água-marinha, que vinha muito alta e muito lenta cobrindo o horizonte, cobrindo as nossas cabeças, tal e qual uma cúpula ou o teto de uma catedral, e quando ela estava toda em cima de mim, luminosa como uma joia, por um instante na minha angústia rebrilhou um momento de paz e eu me disse: "Que bom, finalmente vou morrer", e a certeza de que a aniquilação era inevitável estranhamente encheu meu coração de paz.

Escrever é triste

Escrever é triste, é uma merda, ter escrito algo de qualidade não é " cumulativo", ou seja, não é garantia de que o próximo escrito será tão bom quanto, às vezes é bem o contrário. Escritores ruins têm o mesmo trabalho que os grandes escritores. Enfim: se existe Inferno, Inferno é escrever.

Sobre Deus

Há muito tempo queria compartilhar alguns pensamentos que tenho sobre Deus com vocês. Começo por dizer que não tenho certeza seja de sua existência, seja de sua inexistência. Digo de coração: não sei. Como me ensinaram Machado de Assis e Gustavo Bernardo (este, um excelente professor que tive na Letras), a dúvida às vezes é a melhor saída.

Me ensinaram que, nessa questão sobre a existência de Deus, antes vem a Fé. Ou seja, é preciso crer para ver (ou quase ver). Não sou um homem de fé, e o pouco de fé que tenho precisa partir de algo concreto que é seu pré-requisito, nunca o contrário. Não consigo primeiro e antes de tudo crer, sou da linhagem de Tomé.

Já fui uma pessoa religiosa, por incrível que atualmente possa parecer a alguns de vocês. Quase me tornei uma Testemunha de Jeová (sim, cheguei mesmo a bater de porta em porta como vocês sabem que elas fazem). Mas por questões íntimas que não precisam ser mencionadas neste momento, abandonei a religião, mas não o interesse pelo Espiritual. Religião e Espiritualidade não precisam andar juntas; aliás, é até melhor que não caminhem lado a lado.

Acho que tanto os religiosos quanto os ateus cometem erros demais nesse assunto. Acho que estão, em variados graus, cegos por suas próprias certezas – e o pior: não fazem as perguntas certas.

Se Deus existe, me pergunto, como pode assistir calado a todo esse rio de sofrimento que é a existência no planeta Terra? Porque o dado mais constante em nosso mundo é: o sofrer. Nada há de mais constante, com exceção da morte. Se Deus existe, repito, como pode assistir imperturbável ao desabamento de um prédio, à explosão de um avião, ao estupro de uma criança, à tortura de um prisioneiro? Há algum critério aceitável a me convencer de que fulano pode, sim, morrer de modo horrível enquanto ao seu lado sicrano sai sem nenhum arranhão?

Se Deus existe, Ele a tudo contempla desde sempre. E não move um dedo. Não moveu um dedo quando a menina foi jogada pelo pai e pela madrasta do alto do prédio e, sem erguer uma sobrancelha, assistiu ao seu lento agonizar e morte. Não moveu seu divino dedo quando o avião ultrapassou a cabeceira da pista e foi se espatifar contra um prédio do outro lado da rua, incinerando todos aqueles que estavam dentro da aeronave, numa morte que deve ter sido terrível.

Me disseram, quando eu era cristão, que a Bíblia promete que no futuro Deus vai reparar tudo isso, que os mortos justos serão ressuscitados, como se essa espécie de “prêmio” justificasse todo o sofrimento que porventura algum ser possa passar. Eu digo: nem um segundo de sofrimento vale a vida eterna.

A pergunta mais básica, quando se trata de Deus, e que não tem sido feita nem por cristão, nem por ateu, é: em existindo Deus, onde estará ele? E mais uma: por que Ele não se manifesta? Pergunte-se a si mesmo quantas vezes você tem visto ateus ou cristãos fazendo uso dessas interrogações. Se deus existe, na forma como é apresentado na Bíblia e aceito pela maioria dos cristãos, Ele é um indivíduo, e indivíduos precisam estar em algum lugar. E por que seu Arqui-inimigo, ao menos ele, não se dá a conhecer? Pois se Deus não quer se desvelar, essa é uma excelente oportunidade para Lúcifer. Exposição é marketing, exposição são votos a nosso favor, se formos habilidosos, e Lúcifer é a criatura mais habilidosa que já existiu.

Por outro lado, se Deus não existe, como justificar a existência de um universo extremamente complexo e intrincado? Dizer que se formou “por acaso” me parece um tanto quanto estranho e ingênuo. Posso jogar as 200 peças de um quebra-cabeça dentro de uma caixa e chacoalhá-la pelo resto da eternidade que, ainda assim, ele não se montará. O universo, que é inimaginavelmente mais complicado e vasto do que um quebra-cabeça, então chegou a esse nível altíssimo de complexidade “por acaso”, por “tentativa-e-erro”? Quantos caminhos, bifurcações e becos sem-saída existiriam antes que um universo tão complexo quanto o nosso pudesse enfim se formar?
O certo é que, se Deus existe, Ele não parece preocupar-se muito com os seres – humanos ou não –, pois não se move para apaziguar o sofrimento de Suas criaturas. E a pergunta inteligente que cabe ser feita agora é: “Quero eu ter algo a ver com um Deus inativo?”

Confesso que não sei. E não sei se Ele existe ou não existe. Tudo que tenho são minhas perplexidades, que compartilho com vocês.

Cara nova

Mudei o layout do Opiário. Espero que gostem de sua nova cara.

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A mulher de máscara e eu

Sonhei que tinha tido um envolvimento amoroso com uma mulher no passado, mas que a coisa não tinha ido para a frente porque ela usava uma máscara (uma máscara toda branca, onde se esculpiam cuidadosa e perfeitamente nariz, boca, olhos ) e nunca me permitira ver seu verdadeiro rosto. Agora nos reencontrávamos. Ela morava no andar do meio de um prédio de três andares. Seu apartamento era vasto, fresco, sombreado, com os cômodos construídos em níveis diferentes. Talvez pela proximidade, novamente senti despontar em mim o amor por aquela mulher misteriosa que nunca me deixara ver seu rosto. Então, sentindo esse amor, insisti mais uma vez veementemente com ela para que me explicasse o porquê de jamais ter me permitido vê-la. A pressão foi tal que a mulher perdeu a paciência e acabou retirando a máscara. Vi que sua carne, em algumas partes do  rosto, não existia mais e que por baixo o que se via era uma rede metálica, como a de uma construção. E não apenas no rosto. Nos braços, nos ombros, por todo o corpo havia esses buracos em que se viam redes de arames. Numa das bochechas da mulher o buraco tinha o formato de um coração. Mas, fora isso, seu rosto mulato claro era o mesmo esculpido na máscara, em todos os detalhes: os lábios cheios e carnudos, os olhos grandes, a linha da face... tudo. Perguntei a ela se o apartamento lhe pertencia, pois de repente me deu uma pena imensa de uma mulher com aqueles buracos, que usava máscara e precisava viver sozinha. Fiquei pensando em como sua vida devia ser difícil e solitária... E me preocupei. Na época em que vivera ali, eu pagava o aluguel e supus que assim o fosse também agora. Mas a mulher me disse que o apartamento era seu, que tinha feito um vantajoso acordo financeiro e que acabara conseguindo tornar-se a sua proprietária. Agora não há mais razão para continuarmos separados, e podemos votar a nos amar, pensei, mas me lembrei de que já tinha um outro amor longe dali, na Alemanha. Por um momento pensei, por um momento pesei as duas possibilidades: continuar ali com a mulher, renovar as chamas do velho amor, ou voltar-me para o futuro, para o novo amor que também era meu. Por um momento parei e hesitei. Então, acordei.

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