Não sei, mas agora, lendo algumas coisas que se anda falando a respeito de editoras em Portugal (por lá está ocorrendo uma revolução em termos de editoras; formam-se grandes conglomerados), me bateu a suspeita de que esse Acordo Ortográfico que não andava há quase 2 décadas e que agora, de uma hora pra outra, o Brasil quer porque quer que passe a vigorar (tanto que o MEC já baixou uma resolução dizendo que parte dos livros didáticos terão de vir com as novas regras já em 2010) tem a ver com o interesse dos conglomerados portugueses (cito um: o grupo Leya) em nosso mercado.
É muito mais fácil e o custo é muito menor produzir um livro que poderá ser vendido não importa onde se escreva e leia o mesmo português padronizado, seja no Brasil, na África ou na Mãe Portugal.
Logo vi que debaixo desse angu tinha caroço...
Morri de rir. Às vezes é bom ver as coisas por outro ângulo, pra desmistificá-las.

Oh céus, que bela notícia: uma nova edição do magnífico Mensagem, único livro publicado em vida por Fernando Pessoa, recheada de textos críticos - mas lá em Portugal.
Nunca me esqueço do poema que abre a primeira parte, justamente intitulado Primeiro:
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
"O rosto com que fita é Portugal". Lindo.

Roseana Murray escreveu e Elvira Vigna ilustrou esse belíssimo livro, do qual roubo a ilustração acima e o poema abaixo (o livro pode ser integralmente lido - mais que lido, apreciado - on line)
Escavar o tempo
até que as unhas sangrem
e os tijolos roídos
apareçam por debaixo do muro
espesso dos pensamentos.
Escavar o tempo
até que as cordas se rompam,
as que amarram os ventos
e as tempestades
e a memória, serpente
enterrada,
possa deslizar.

Duas paixões, é bom avisar, cultivadas de modo mais que peculiar. Como leitor, o herói de Jonas, o copromanta corrige os romances que lhe caem nas mãos, quer se trate de Dostoiévski ou de Nabokov. E, no terreno da adivinhação, o herói tem seu próprio sistema, baseado no estudo compenetrado das formas do bolo fecal. Corrigir romances, decifrar fezes: meras esquisitices, até o momento em que, ao ler "Copromancia", conto de Rubem Fonseca, Jonas chega à certeza alucinatória de ter sido dolorosamente plagiado por seu próprio ídolo. Para piorar as coisas, a realidade resolve dar uma mãozinha à obsessão, e o escritor passa a freqüentar a biblioteca, fazendo (ou talvez simulando?) pesquisas para seu próximo romance.
A partir daí, o enredo mergulha numa espiral vertiginosa de perseguição e loucura. A leitura fervorosa que se transforma em suspeita de plágio ("Nunca se sabe do que um escritor é capaz") vai aos poucos roubando a substância do próprio herói: os livros de Rubem Fonseca seriam uma transfiguração da vida de Jonas ou esta seria um reflexo fantasmagórico do que se passa nos livros do autor carioca?
No ponto mais baixo dessa espiral, está a figura eqüina e grotesca de Zoé, que Jonas transforma em sacerdotisa da copromancia. Sumo mistério ou simples miséria? Segredos ocultos ou sordidez à mostra? Com esta fábula carioca feita de desvario e solidão, Patrícia Melo inscreve seu herói singular na galeria romanesca de pobres-diabos que é um dos veios centrais da literatura brasileira.
Por que será que não gostei da sinopse do novo romance de Patricia Melo, Jonas, o copromanta? O que significa "Patricia Melo inscreve seu herói singular na galeria romanesca de pobres-diabos que é um dos veios centrais da literatura brasileira"? Se se trata de um herói "singular" como é que ele pode inscrever-se em uma galeria de semelhantes? Quer frase mais clichê do que "Nunca se sabe do que um escritor é capaz"? E que capa horrorosa é essa, com desenhos de cocôzinhos, que precisou de dois "artistas" (Elisa Cardoso e Kiko Farkas)? Definitvamente, as coisas não andam muito bem lá pelas bandas do País da Literatura Brasileira.
(Céus! E pensar que uma dessas revistas americanas a que dão muita importância incluiu o nome de Patrica Melo entre as 50 jovens personalidades mais influentes da América Latina...)
Curta baseado num texto infantil de Saramago (e com o próprio como narrador/personagem).

Dia desses vi um camelô vendendo, entre filmes do Stallone & quetais, um DVD pirata do Persépolis, da quadrinista iraniana Marjane Satrapi.
Meu queixo caiu.
Alguém precisa avisar aos tecnocratas da equipe econômica que, ao contrário do que se anda alardeando, o aumento do arroz não foi apenas de 20 ou 30% no último mês. No supermercado de subúrbio onde faço minhas compras o valor do saco de 5 quilos mais que dobrou!
As notícias sobre a tensão no Líbano têm um interesse especial para o Brasil: temos aqui a maior colônia libanesa no mundo, com cerca de 6 milhões de pessoas. É mais gente aqui do que lá.
Dá uma tristeza ver que as coisas naquela região nunca melhoram. Sobretudo quando nos lembramos do paraíso que o Líbano era antes da guerra civil.

Uma aluna me deu de presente o Volver, do Almodóvar. É meu primeiro filme do Almodóvar (sem contar A lei do desejo, que anda perdido, sei lá onde).
Quem disse que a profissão de professor é só espinhos?
Êta mundão estranho sem porteira!
O filme é falado em espanhol, mas as legendas são em inglês, português e francês. Não tem legendas em espanhol.
Há coisas no mundo que, francamente, eu não entendo...
JE NE REGRETTE RIEN
Edit Piaf
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je m'en fous du passé !
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux !
Balayés les amours
Et tous leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !
JE NE REGRETTE RIEN
Edit Piaf (neste vídeo, numa impressionante interpretação da atriz Marion Coutillard - o que lhe valeu o Oscar de melhor atriz estrangeira esse ano)
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je m'en fous du passé !
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux !
Balayés les amours
Et tous leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !
Non ! Rien de rien
Non ! Je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !
Comprei outro gravador de DVD pro meu computador. O que já está nele ficou travado na Região 2 (Europa) e não tem como mudar (não, eu não sabia que só podia fazer 5 alterações de região). Por isso tive que comprar um novo. Há 2 semanas um drive de DVD custava, em média, 65 reais aqui no Rio. Comprei hoje por 57 reais. É impressionante como as coisas de informática estão baratas com o dólar baixo.
Eu mesmo instalei o novo drive, embora não goste e não tenha a menor paciência com hardware: minhas mãos são muito grandes, as peças demasiado pequenas, vou ficando irritado, vou me estressando, quase que jogo o computador pela janela... Está tudo funcionando, embora com uma alteração: meus CDs e DVDs não rodam mais automaticamente. Tenho que descobrir como reabilitar o autorun. (Não, clicar com o botão direito do mouse no drive e selecionar a aba "Execução automática" não resolveu - afinal, estamos falando do Ruindows, esqueceram?).
- 45% da área plantada no Brasil são dedicados à soja;
- Já na safra 2010/2011 o Brasil pode se tornar o maior produtor de soja do mundo;
- A soja é base para cerca de 80% do biodiesel produzido no Brasil;
- As pesquisas têm indicado que, no cerrado, as lavouras de soja geram entre 1 e 4 empregos a cada 200 hectares. Comparando, o tomate pode gerar 245 vagas; a uva, 113 e a mamona, 24. De qualquer modo, de acordo com dados do Ministério do Trabalho, o número de postos nessas lavouras passou de 5.405, em 1995, para 70.457, em 2006.
- Sobre trabalho escravo: a produção de soja está na terceira colocação entre as atividades que mais praticam esse crime. Dos 163 incluídos na lista suja, pelo menos 10 são propriedades do grão.
- Até 2004, 1,2 milhão de hectares da Floresta Amazônica viraram lavouras do grão.
- O cerrado também não foi poupado. Se o ritmo de devastação do cerrado se mantiver nos níveis médios de 1985 a 2002, ele poderá desaparecer em 2030/36.

Inauguraram em frente ao meu prédio, do outro lado da rua, numa casa de dois andares, uma filial da Igreja Messiânica. Qualquer dia desses eu atravesso e vou tomar uns passes de johrei. Quem já experimentou diz que é ó-ti-mo.
Aliás, já que estou aqui abrindo, não a alma, que nem sei o que é isso, se é que é alguma coisa, mas as narinas, para ver se a respiração, que já começa a acelerar, dá conta de secar mais rápido umas umidades que atingem neste momento nariz e olhos, não sei por quê. Mas sim, eu estava abrindo alguma coisa. As lembranças. E para o mundo. Então tá.
Elvira Vigna disponibilizou, gratuitamente, o texto que acaba de sair, num volume só de mulheres, sobre as delícias e as agruras do "ser mãe". É muito bom.
Esses dois moleques são uns fofos! Adorei esse vídeo...

A família de Harry Laus sempre teve um carinho especial comigo. Talvez porque eu tenha criado uma comunidade para Laus no Orkut, ou porque não perco uma oportunidade de mencionar seu nome, em dizer o quão grande escritor ele foi e o quanto é lamentável que ele seja mais conhecido na França do que no Brasil.
Uma das sobrinhas de Laus me deu um exemplar do esgotadíssimo romance - o único que escreveu - Os papéis do coronel. A própria dona Ruth Laus, irmã do escritor, que lutou até o fim da vida (ela faleceu ano passado) para manter a sua memória viva, mandou me agradecer.
Agora Egeu Laus, sobrinho de Harry, criou o blog Harry Laus Vivo e fez a gentileza de abri-lo com um texto meu, postado há tempos aqui no Opiário.
Primeiro foi o feijão. Agora é a vez do arroz. Será que vou ter de passar a me alimentar de miojo?

Ciudad del Est
Olha, vocês que me desculpem, mas acho que o recém-eleito presidente do Paraguai, Fernando Lugo, está coberto de razão: os cerca de dois bilhões que o Brasil paga ao seu país pelo uso de 95% da energia fornecida por Itaipu é um valor vergonhosamente baixo. Os paraguaios estão certíssimos em pedir revisão do acordo (feito na época da Ditadura, gostaria só de vos lembrar).
O Brasil tem que parar com essa mania de querer ser os Estados Unidos da América Latina e fazer com os países vizinhos o que os EUA fazem conosco. Depois, não adianta reclamar. Desconfio, baseado em fragmentos que vou ouvindo e lendo aqui e ali, que o Brasil é muito mal-visto pelos seus vizinhos. E, em parte, com razão. O Lula adora ir resolver o problema da África, mas esquece dos hermanitos aqui do lado (a maneira mais fácil, há décadas, de ganhar alguma publicidade grátis é ir "ajudar" a África. Gerações de músicos americanos sabem muito bem disso).
O Paraguai é o segundo país mais pobre da AL, só perde pra Bolívia. A situação do povo paraguaio é de dar pena: 60% da população está abaixo da linha de pobreza. Se vocês acham - como eu - que viver no Brasil é estar no Inferno, deviam procurar se informar um pouco melhor sobre a situação paraguaia.
Um acordo que mantém os valores congelados até o ano de 2023 (portanto, ainda por longos 15 anos) é, no mínimo, suspeito. E eu acrescentaria: é rapace, mesquinho, cruel, desonesto e desigual.
Me irrita lembrar que o digníssimo Fernando Henrique Cardoso, durante o seu (lamentável? desastrado? patético?) governo, tenha metido a mão nos cofres públicos para dar de presente 15 bilhões aos bancos privados e agora a gente fique nessa mesquinharia de não querer nem ouvir o que o Paraguai tem a dizer.
O Brasil, se é que quer realmente ter um papel importante na América Latina - do que eu duvido seriamente, é tudo jogo de cena (o Brasil, lembrem-se, é o país do "parecer" não do "ser"; o velho Machado de Assis já nos advertia a respeito 100 anos atrás) -, tem que começar a assumir sua responsabilidade social como o país mais rico da região. Esse papel social é o mais importante. Todo o resto - preponderância política, econômica, militar e tecnológica - teriam de vir num segundo momento. O Brasil não vai crescer de fato se todos os outros países ao seu redor estiverem mergulhados na miséria (Bolívia, Paraguai) ou numa precária situação de equilíbrio (Argentina, Chile). Há países por aqui que mais ou menos andam sem ajuda do Brasil - como, por exemplo, o Uruguai - mas mesmo assim nós só vamos nos tornar um bloco coeso e integrado se estivermos todos fortalecidos. Querer real desenvolvimento num cenário que desconsidere isso é sonhar acordado.
Vocês vão alegar: o Brasil tem seus próprios problemas, não pode ficar ajudando quem está numa situação pior do que a sua. E eu vos replicarei: isso não é um jogo em que temos de ganhar e ganhar e ganhar, sem um pingo de sacrifício ou prejuízo. Estamos falando do bem-estar de milhões de pessoas. E o Brasil pode, sim, suportar algumas perdas. Terá de fazê-lo, ao meu ver, se quiser tornar-se uma "Potência" - o sonho dourado mais querido de todo presidente que nos governou nas últimas décadas.
Acorda Brasil!
Operei a miopia há uns 8 ou 10 anos (o Tempo, pra mim, é uma questão complicadíssima - que vale até um post à parte), não me lembro bem. Operei numa clínica em Ipanema, muito conhecida. Um dia estava lá, na recepção, acho que aguardando a minha médica para os exames pós-operatórios, quando ele chegou. Reconheci-o logo, embora há tempos não o visse na TV. Ator da Globo, "galã", tinha feito muito sucesso na década de 80. Todas as mocinhas - e alguns mocinhos - suspiravam ao vê-lo naqueles tempos pré-malhatórios, em que um peito peludo bem torneado, mas sem músculos, fazia a delícia e o prazer de muita gente pelo Brasil. Confirmei logo que os boatos eram verdadeiros: uma bichona. Estava com o rosto meio inchado (botox?), e irrompeu inopinadamente, não parando na recepção e já entrando pelo corredor a dentro. Foi barrado por uma das recepcionistas (nenhuma o reconheceu). A contragosto retornou até ao balcão das recepcionistas. Mal podia conter a sua indignação. A funcionária, impassível, explicou que ele precisava aguardar sua vez e que, enquanto isso, teria de fazer sua ficha. "Qual seu nome?" Os olhos arregalaram-se por um segundo. "Márcio", disse ele, a voz perigosamente baixa e a impaciência a ponto de transbordar. "Márcio do quê?" Os olhos estreitaram-se perigosamente, duas fendas horizontais fuzilando a moça que, cabeça baixa olhando a tela do computador, não deu pela coisa. O sobrenome saiu como uma bofetada: "Vitti" (naquele momento pude ouvir claramente a pergunta não formulada, mas que passava pela cabeça famosa nos ecrãs outrora: "Como ela ousa não me reconhecer?!?) A recepcionista ficou ainda alguns instantes digitando e depois pediu para que o paciente aguardasse, brindando-lhe com um sorriso radiante.
Hoje está totalmente sumido da TV. A nova geração não sabe mais quem ele é ou foi. Mas deixou um herdeiro: agora é seu filho, um garotão bonito, quem leva o nome "Vitti" até as luzes dos refletores da Vênus Platinada.
E eu fico aqui, recordando a cena, que nunca mais me saiu da cabeça: como a fama é traiçoeira, como as pessoas são ridículas, como tudo é efêmero e impermanente!
(P.s.: Não adianta procurar nenhum "Márcio Vitti" no Google: troquei o nome verdadeiro do ator, claro, para preservar sua identidade e minha conta bancária de um improbabilíssimo, mas possível, processo).

Essa é pros meus leitores (ainda os tenho?) europeus: uma pessoa consegue sobreviver na Europa com 1.000 euros mensais?
Adendo: 9 gentis portugueses me responderam (viva! ainda tenho leitores na Europa!) e, pelo teor das respostas, acho que - ainda hipoteticamente - vou ter que escolher mesmo um país da América Latina pra bolsa-sanduíche. Tant pis, vou comer muita coisa feita de milho: pães, bolos & broas. E volto falando espanhol fluente. Só não quero voltar com um filho com cara de índio - nada contra os índios, tudo contra os filhos. Rsrsrs.
Consegui quebrar mais uma cadeira (deve ser a quinta ou sexta). Essa foi valente: durou mais de um ano...

Aimé Césaire nunca foi muito conhecido por estas bandas. No entanto, trata-se de um dos maiores poetas "franceses" dos últimos 50 anos. Negro nascido na Martinica, de sólida formação européia (leia-se "francesa"), foi também político em seu país de nascimento, sendo prefeito da cidade de Fort-de-France por quase 60 anos.
Alguns políticos franceses estão em campanha para que, caso a família o aceite, Césaire seja enterrado no Panthéon. Acho um belíssimo gesto.
Procurei pela web e topei com o blog Salamalandro, cujo proprietário - Leo Gonçalves - traduziu o poema abaixo, de Césaire, como uma homenagem ao poeta morto:
Palavra-macumba
a palavra é pai dos santos
a palavra é mãe dos santos
com a palavra serpente é possível atravessar um rio
povoado de jacarés
acontece de eu desenhar uma palavra no chão
com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto de um dia
existem palavras-remo para afastar tubarão
existem palavras-iguana
existem palavras sutis essas são palavras bicho-pau
existem palavras de sombra com despertadores em cólera faiscante
existem palavras Xangô
acontece de eu nadar malandro nas costas de uma palavra-golfinho
le mot est père des saints
le mot est mère des saints
avec le mot couresse on peut traverser un fleuve
peuplé de caïmans
il m’arrive de dessiner un mot sur le sol
avec un mot frais on peut traverser le désert
d’une journée
il y a des mots bâtons-de-nage pour écarter les squales
il y a des mots iguanes
il y a des mots subtils ce sont des mots phasmes
il y a des mots d’ombre avec des réveils en colère d’étincelles
il y a des mots Shango
il m’arrive de nager de ruse sur le dos d’un mot dauphin
NA TV DIGITAL, SÓ AS IMAGENS MELHORAM DE QUALIDADE
Sérgio Augusto
Ela primeiro chegou a São Paulo. Oficialmente no dia 2 de dezembro de 2007, com direito à festa no arraial paulistano e a presença do presidente Lula. Daqui a cinco semanas, será a vez do Rio de Janeiro; provavelmente no dia 20 de abril, por desejo da Rede Globo, que pretende aproveitar seu aniversário para estender os recursos da TV digital de alta definição, vulgo HDTV, aos 17 municípios da Região Metropolitana do Rio. Em São Paulo, as redes inauguraram o sistema juntas. No Rio, a Globo sairá na frente, sem que se saiba em que datas a Bandeirantes, o SBT, a Record e a RedeTV! darão tchau ao analógico.
Mas parece certo que, ainda neste semestre, será possível apreciar com maior nitidez e melhor sonoridade a brejeirice de Márcia Goldschmidt e Sonia Abraão, a breguice de Hebe, Gugu, Otavio Mesquita e Raul Gil, os ademanes de Gasparetto e os púlpitos e pátios dos milagres de todos os bispos e pastores da RedeTV! e da Record. Pérolas aos porcos.
Para que imagens com maior definição se o que elas em geral exibem não merece mais do que um jurássico televisor em preto & branco? Para nos emburrecermos letalmente diante de um televisor (''amusing ourselves to death'', na feliz expressão de Neil Postman sobre a vampirização da humanidade pelo vídeo), a transmissão analógica basta. Se o olhar do observador altera o objeto observado, o foco perfeito não melhora a qualidade intrínseca do objeto focalizado.
A questão fundamental, portanto, não diz respeito a monitores de plasma ou cristal líquido, com 1.080 linhas, miríades de pixels e conversores integrados ou periféricos, mas a formas & conteúdos tão ou mais ultrapassados que um tubo de raios catódicos.
Com raríssimas e escasseantes exceções, a televisão brasileira anda muito ruim, quase italiana, só um pouco acima da mexicana. Tecnicamente, avançamos bastante; chegamos até a impor um padrão internacional de teledramaturgia, mas até nessa seara estacionamos; ou melhor, regredimos, caindo num esquematismo, numa mesmice de dar dó. E que até os comerciais já contaminou, sobretudo os de automóveis, cervejas e produtos de beleza, a maioria deplorável.
Suposta salvação da lavoura, a TV a cabo e por satélite, no Brasil, revelou-se um engodo. Pouco importa que, devido ao número insatisfatório de usuários, nossa TV paga não possa ter cumprido suas promessas (''Programas exclusivos!'', ''Sem intervalos comerciais!'', ''Somente filmes legendados!'', etc.) nem baixado os preços da assinatura a níveis mais compatíveis com o bolso do brasileiro médio. A Sky fala muito em interação com o telespectador, mas não lhe possibilita montar um pacote razoavelmente ajustado às suas preferências.
Mesmo o cliente que, persuadido a contratar um pacote de 98 canais, optou por outro de, digamos, 78, para evitar uns 20 sem o menor interesse para ele, teve de engolir um chorrilho de inutilidades. Ou levamos o filé de 200 gramas de carne e 30 quilos de osso, ou nada feito.
Experimente abrir mão dos sete ou oito canais de programação infantil, perfeitamente dispensáveis para quem não tem filhos. Se conseguir livrar-se de todos eles, na certa perderá outros de seu particular interesse, compulsoriamente atrelados aos puericanais recusados.
Zapeando pela grade da Net ou da Sky Net+Directv, um assinante não vidiota se detém, no máximo, em dez canais. O que não quer dizer que na maioria deles permaneça mais de alguns segundos, tempo suficiente para uma estimativa do tédio ou do insulto à inteligência que o aguarda. Sei de gente (com uma quantidade razoável de neurônios e afeita a diversificadas formas de lazer & cultura) que salta direto da Globo para os dois canais SporTV, desprezando cerca de 34 (trinta e quatro!) emissoras intermediárias, invariavelmente enxundiadas por cultos religiosos, camelôs eletrônicos, videoclipes de rock, fofoquinhas de celebridades, desenhos desanimados e leilões de gado, jóias e ouropéis.
Ok, o canal de golfe é bônus. O Speed também. Bônus, do latim ''bonus'' (bom), é sinônimo de prêmio e vantagem. Para quem despreza golfe e veículos em alta velocidade, tais bonificações não são um prêmio, mas uma usurpação de espaço. Nestes e noutros, ocupados por canais como Managementv, Canção Nova, Terra Viva, LBV, etc., poderiam estar, franqueados ou com desconto, um ou dois HBOs, um Cinemax, um Maxprime (que, aliás, está exibindo a melhor telessérie dos últimos tempos, A Escuta).
Até por dever profissional, sou freguês assíduo da Globo News (e com maior entusiasmo quando Ana Paula Couto comanda o Em Cima da Hora), visitante bissexto do GNT (ele é de Vênus, eu sou de Marte, certo?), freqüentador constante do Universal (por conta de House, Law & Order, S.V.U. e Monk), e, eventualmente da CNN. Ando cada vez mais alheio às sessões dos Telecines, pois até o melhor deles, ex-Classics, adotou nome mais elástico (Cult) para justificar os abacaxis que praticamente passaram a monopolizar suas sessões.
Abandonei o Sony desde que de sua programação desapareceu o C.S.I. Las Vegas, banido para o AXN. Assinei, esperançoso, o TCM, que já se acomodou ao que Graciliano Ramos chamava de ''gosto rombudo das massas'', atravancando seu horário nobre com as nostálgicas baboseiras (Chaparral, etc.) antes confinadas ao nicho vespertino. O Eurochannel costuma ser um tédio à altura das cinematografias que representa. O Hallmark Channel é uma tapeação, com a agravante de que não ensinaram ao locutor que promove seus filmes a pronúncia correta de Hallmark: é ''Rolmarque'', e não ''Carimaqui'', como ele persiste em dizer, como se estivesse nos oferecendo uma nova variedade de sushi.
Como cobram R$ 200,00 de mensalidade por 93 canais, cada um custa em torno de R$ 2,15 por mês, uma pechincha para quem usufrui todos eles. Para quem não tem o hábito de assistir a mais de 10 canais desse pacote, a conta, no fim do mês, chega a R$ 20,00 por canal. Seria um preço razoável se os 10 canais nos enchessem as medidas - e, acima de tudo, se ganhássemos em dólar, que, embora até aqui deliqüescente, ainda vale quase o dobro do real.
Minto: nem assim. A Digital Cable de Nova York cobra US$ 61,50 por mês por um pacote de 225 canais. Por cada canal, o assinante desembolsa cerca de 27 centavos de dólar (mais ou menos 50 centavos de real).
Há muito virou pó a esperança de que, quanto mais assinantes a TV paga amealhasse, maior qualidade poderia oferecer. Num país como o nosso, apinhado de ignorantes, tal lógica não funciona. Aqui, quanto mais o consumo de algo se horizontaliza, mais se amplificam a mediocridade e o desleixo. A programação da Globosat maiamizou-se inteiramente, inclusive por ser, em grande parte, comandada de Miami. Esto tiene un precio. Até com chamadas em portunhol somos, ocasionalmente, agredidos, quando não surpreendidos por chamadas e documentários com legendas em espanhol, como o que o TNT exibiu há tempos sobre o ator Roger Moore.
As inopinadas alterações na localização de canais na grade, que a inúmeros assinantes tanto irrita, são de somenos. Mais graves são as insistentes reprises e os erros ditados pela incompetência dos tradutores de narrações e legendas: erros crassos de português e identificação (o cineasta Irving Rapper já virou ''Ralph Rhaper''; o ator James Garner ganhou um Gardner de sobrenome; a famosa delicatessen nova-iorquina Balducci virou ''Valduchi''; e acho que não preciso esclarecer quem, num documentário sobre Shirley Temple, apareceu, nas legendas, como ''Adolphe Mangiou'' e ''Darry F. Sanik''). Por anos a fio, em todo filme ou seriado policial aparecia um personagem chamado Coroner. Coincidência ou falta de imaginação dos roteiristas americanos? Não, ignorância dos nossos tradutores. Coroner não é nome de gente, mas profissão: médico legista, figura onipresente em qualquer intriga policial.
Volta e meia somos agredidos, nos rodapés da Sky, com batismos apócrifos impostos a filmes antigos, cuja identificação exige uma certa perícia da parte do telespectador, e também por qualificações absurdas, como enquadrar uma comédia musical da Metro na categoria ''drama de tribunal'' (sim, era Les Girls, de George Cukor). Nem os mais ridículos títulos aqui dados a filmes estrangeiros deveriam ser mudados pelo capricho ou pela ignorância de nossos programadores. Nem mesmo East of Sumatra, lançado no Brasil em 1954, com o inexplicável título de Ao Sul de Sumatra, deveria ser corrigido pela Net.
Crescentemente nivelada por baixo, repetindo filmes ad nauseam (Quatro Funerais e Um Casamento, O Reverso da Fortuna, Legalmente Loura, Risco Duplo, Homicídios Ocultos), a TV paga acabou se rendendo até ao filme dublado, essa invenção fascista cujo incentivo deveria ser expressamente proibido pelo Ministério da Educação. O antigo Telecine Comédia foi rebaixado a Pipoca justamente para fomentar, com sua programação dublada, o nosso contingente de analfabetos.
Legendas erradas, o ouvido experiente corrige. Mas as asneiras da dublagem passam impunes. Só os muito espertos sacaram que a ''mamãe assobiadora'', por quem um dos protagonistas da versão dublada de Uma Loura Por Um Milhão (Fortune Cookie, de Billy Wilder) jura como quem jura pela mãe mortinha, era ninguém menos que a veneranda Anna Whistler, mãe do pintor James Whistler, celebrizada no famoso quadro Whistler''s Mother, pintado por seu filho em 1871. Se tivessem traduzido Whistler''s Mother por ''mãe do assobiador'', em vez de ''mamãe assobiadora'', apenas uma mancada teria sido cometida. Desgraçadamente, em matéria de defeitos, nossa TV paga não se contenta com menos.
Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/2

Pergunta : As alteracões da língua portuguesa já estão valendo? As pessoas me perguntam e eu vejo em vários sites informações sobre elas, mas gostaria de saber por fonte mais segura. Obrigada.
Resposta : As mudanças na ortografia ainda estão em estudo. Não há previsão da entrada em vigor, pois isso depende dos governos dos países lusófonos. As mudanças previstas são as seguintes: 1 - o trema não será mais empregado; 2 - o acento agudo nos ditongos abertos éi, éu, ói não será mais usado (idéia, céu, herói); 3 - o acento circunflexo dos hiatos oo, ee não será mais utilizado (vôo, enjôo, lêem, vêem); 4 - deixarão de ser usados os acentos diferenciais de intensidade: pára (verbo), pólo, pêra, pôr; 5 - serão revistos alguns casos de hífen.
Recebi um e-mail com a explicação acima, dada pela Academia Brasileira de Letras, de um dos colegas da Pós. Portanto, boys & girls, mesmo se já tem jornais distribuindo gramáticas com a "nova" alteração ortográfica, a verdade pura e simples é: as coisas ainda não mudaram (e, talvez, nem mudem).
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
(Faltou pouco pra eu não me mijar de tanto rir)